← CIÊNCIA E CONTEÚDOS

Quando um siso precisa ser removido no hospital?

SISOS E PLANEJAMENTO CIRÚRGICO · Por Rayane Franklin, cirurgiã-dentista · CRO-MG 73477 · Conteúdo educativo, não substitui avaliação individual.

A posição do dente importa, mas a escolha do ambiente também depende da saúde do paciente, da anestesia e dos recursos necessários para o procedimento.

Nem toda cirurgia de siso precisa acontecer em um hospital. Muitos casos podem ser tratados em consultório, com anestesia local, equipe capacitada e estrutura adequada.

Em algumas situações, porém, o planejamento pode indicar um centro cirúrgico hospitalar. Essa decisão considera o conjunto: o paciente, a cirurgia e os recursos necessários para realizá-la.

O que pode levar à escolha do hospital?

  • Necessidade de suporte anestésico e monitorização compatíveis com a condição do paciente ou com o procedimento.

  • Condições de saúde que exijam acompanhamento médico, recursos adicionais ou observação mais próxima.

  • Cirurgia de maior complexidade, especialmente quando há comprometimento importante do osso ou possibilidade de procedimentos adicionais.

  • Infecção extensa, comprometimento de estruturas importantes ou necessidade de tratamento hospitalar.

  • Necessidades individuais que inviabilizem o atendimento seguro no consultório, após avaliação das alternativas.

Vale separar três ideias que costumam se misturar. Precisar de um especialista não é o mesmo que precisar de hospital. E anestesia local, sedação e anestesia geral são recursos diferentes, indicados por motivos diferentes [3, 4].

Um siso muito profundo pode aumentar a preocupação com fratura?

Pode, em determinados contextos. Quando um dente está profundamente incluído, é necessário avaliar quanto osso o envolve, a condição da mandíbula, a presença de lesões e o acesso necessário para removê-lo.

A fratura mandibular associada à extração é uma complicação rara. Uma revisão de casos publicados ao longo de mais de 60 anos descreve uma incidência muito baixa e um conjunto de fatores associados, como dentes inclusos, a presença de lesões e a região do ângulo da mandíbula [1]. O risco não depende apenas da altura do dente no exame: vários fatores precisam ser analisados em conjunto.

Por isso, um siso próximo à borda inferior da mandíbula merece uma avaliação cuidadosa, mas essa proximidade não significa que haverá fratura nem que o hospital seja obrigatório.

E quando as raízes estão próximas ao canal mandibular?

O canal mandibular é um trajeto ósseo por onde passam o nervo alveolar inferior e vasos sanguíneos. A relação entre as raízes e essa região pode influenciar o planejamento.

Na radiografia panorâmica, estruturas podem aparecer sobrepostas. Essa imagem, sozinha, não permite afirmar que o dente está “dentro do canal”. Em casos selecionados, a tomografia pode responder a uma dúvida específica e ajudar na decisão [2].

A proximidade com o nervo também não significa, automaticamente, que a cirurgia precise ocorrer no hospital. Dependendo do caso, pode mudar a técnica, a necessidade de encaminhamento ou até a escolha entre remover, acompanhar ou considerar uma coronectomia.

A coronectomia é uma técnica em que a coroa do dente é removida e as raízes são intencionalmente mantidas, em situações selecionadas. Não é adequada para todos os casos e exige acompanhamento [2].

Operar no hospital elimina os riscos?

Não. O hospital oferece recursos que podem ser necessários para determinados pacientes e procedimentos. Isso não substitui o diagnóstico, a indicação correta e o planejamento cirúrgico.

Hospital também não significa, necessariamente, passar a noite internado. Conforme o procedimento, a recuperação e as condições clínicas, o atendimento pode ocorrer em regime de hospital-dia.

A escolha do ambiente faz parte do cuidado

Antes de decidir onde operar, é preciso compreender por que remover o dente, quais alternativas existem e que estrutura o caso exige. A indicação de remoção vem antes da escolha da técnica e do ambiente. A avaliação individualizada é o que permite reunir essas respostas.

Tem dúvidas sobre o planejamento do seu siso? Agende uma avaliação →

Referências

[1] Joshi A, Goel M, Thorat A. Identifying the risk factors causing iatrogenic mandibular fractures associated with exodontia: a systemic meta-analysis of 200 cases from 1953 to 2015. Oral and Maxillofacial Surgery, 2016. Compilação de 200 casos publicados; contextualiza a raridade da complicação. Não permite prever o risco de uma pessoa nem comparar hospital e consultório.

[2] Sánchez-Garcés MA, et al. Diagnosis and indications for the extraction of third molars: the SECIB clinical practice guideline. Medicina Oral, Patología Oral y Cirugía Bucal, 2024. Sustenta a indicação individualizada, o uso não rotineiro da tomografia e a coronectomia em casos selecionados.

[3] NHS England. Oral surgery clinical standard, 2023. Referência de organização do sistema público inglês, não uma norma brasileira.

[4] Geddis-Regan AR, et al. The use of general anaesthesia in special care dentistry: a clinical guideline from the British Society for Disability and Oral Health, 2022. Diretriz baseada principalmente em consenso de especialistas; sustenta avaliação individual antes de indicar anestesia geral.

Leia também: por que alguns sisos exigem um planejamento mais cuidadoso? →